quinta-feira, 10 de maio de 2012

Carta 2


Caro Senhor Bowie,

desculpe-me, eu ia escrever antes, mas fiquei confuso com a viagem e tudo mais. Bem, demorei um pouco, mas aqui estou de novo. Estou em Paris, estou na Europa!
Abro os olhos e os ouvidos e destapo as narinas para Paris. Os cheiros de Paris bons e ruins ao mesmo tempo. Das baguetes, dos parques, das lojas e dos sovacos fedorentos de pessoas que não gostam tanto assim de tomar banho. Hoje fez calor. Meu apartamento é do lado de uma avenida que faz barulho tempo inteiro, até de noite. Essa cidade não dorme aparentemente. Tem um supermercado na esquina e muitos livros jogados em caixas por vinte centavos de euro. As pessoas não são tão mal educadas como dizem por aí, elas só gostam de respeito. Acho que ninguém gostaria de ver sua casa invadida por estranhos. Imagino que seja assim que os franceses vejam os turistas. Alguns gostam, mas a maioria (se não forem donos de comércio) dão uma certa desprezada. Fecho os olhos e imagino tudo coberto de neve. Não vi neve ainda, só no alto do vulcão equatoriano. Não, não fui até o cume porque não sou louco. Vai saber se aquele troço explode e sai lava pra tudo que é lado. Não, não; não tô afim de virar churrasquinho de escritor. Hoje eu passei pela casa que o Paul Valery morou. Aquele que teve um caso com o Rimbaud, lembra? Talvez eles até passassem tempo juntos naquela casa. Ou melhor, “passassem tempo juntos”, se é que você me entende.
Enfim, esses últimos dias tem sido ótimos. Encontrei minha namorada no aeroporto, Senhor Bowie, e ela se jogou em mim. Abriu os braços e quase caímos. Foi engraçado. Eu tava era branco de medo de não passar na imigração espanhola. É que estavam mandando um monte de gente embora. O Senhor não teria esse problema, pois já nasceu na comunidade européia, mas sabe lá eu como seria. No fim, me trataram super bem.  Me perdi no aeroporto de Madrid e fiquei acompanhado de duas senhoras de Taubaté, uma cidade perto da minha no Brasil, que estavam mais perdidas que sei lá o que. É um aeroporto grande e eu fiquei de tradutor para que elas soubessem que trem pegar, onde comer, onde pegar o avião pra Paris, essas coisas. Não me incomodei não, eu sempre gosto de conversar com as pessoas e elas eram engraçadas.
No primeiro dia, conheci alguns amigos da namorada e fomos beber, conversamos, já fui a um pub parisiense. Era bem parecido com um de Cambridge que eu fui, da última vez que estive na Europa. Aí no dia seguinte comemos em Saint Michel, em um restaurante super legal que tava tocando o cd da Adele ad nauseum. Ainda bem que eu não enjoei dela! Aprendi a comer escargot! E adorei! E comer comida francesa na França é bacana! Até porque tudo aqui é francês, oras! Isso me lembra uma piada que o meu avô gostava de fazer dizendo que era uma graça como as crianças francesas aprendem o francês cedo! E as espanholas falam espanhol como ninguém! Depois disso realizei um dos primeiros sonhos que pretendo realizar nessa viagem. Conheci a Ópera de Paris. O senhor é familiarizado com a história do Fantasma da Ópera, né? Eu sei que o senhor prefere 1984, mas eu sou fanático pelo fantasma desde os meus dez anos de idade. Ir para o lugar onde ele morava (na história? huuum) e conhecer seu camarote foi a realização de um sonho, ainda mais sabendo que tinha uma placa na porta dizendo “camarote do fantasma da Ópera”. Foi muito legal! Eita, lugar chique! O Senhor já foi lá?
Fui passear na Virgin Store, no Arco do Triunfo, foi um dia muito bom! Fomos ao cinema também ver Os Vingadores (ou The Avengers), com o Hulk, Viúva Negra, Homem de Ferro e o Thor. Por incrível que pareça, eu gostei do filme. Eu me envolvi com a história, apesar de não saber muito. É um filme de ação e tal, com personagens de histórias em quadrinhos que eu não estou lá muito familiarizado, mas tudo bem, acho que eu nem precisava saber nada para poder me divertir com todas as imagens e efeitos especiais. Ah, sim, tem o Capitão América também, mas as pessoas parecem não gostar muito dele. O que eu queria mesmo era ver um filme bem feito com o meu super herói favorito que é o Fantasma. Aquela meleca com o Billy Zane não faz jus ao herói. Uma pena.
Estou fazendo aula de francês e praticando na rua, nos sebos, comprando vários discos por 2, 3, 4 euros. Dei um disco seu pra minha namorada e ela gostou, eu acho. Nós dois sabemos que se ela não tiver gostado é porque ainda não está evoluída espiritualmente para tal, mas eu acho que ela está. Achei vários discos raros e/ou impossíveis de achar no Brasil lá na minha frente! Foi difícil não comprar tudo!
Pensei que fosse ver um show do James Taylor aqui, mas ele já está com os ingressos esgotados. Por falar em show, Senhor Bowie, que tal uma turnê, hein? Ia ser uma boa, né? Sim, eu sei que o Senhor prefere ficar em casa e tal, mas pense: logo seus netos (o Duncan tem filhos?) não terão visto o Senhor no palco. Isso não é triste? (Bom, não custa tentar, né?)
Ganhei vários presentes! Estou muito feliz! Estou aprendendo a andar de ônibus por aqui, RER também e até metrô! Vou me virando, com e sem ajuda, =)
Semana que vem tenho algumas coisas em mente para fazer. Uma delas é passar na frente do apartamento da Maria Callas aqui em Paris. O Senhor gosta dela? Eu gosto.
Bom, depois nos falamos mais!

Tudo de bom,

                                 Ricardo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Carta 1

Caro senhor Bowie, 

em primeiro lugar, o senhor me permite chamá-lo assim? Somente de Bowie ou senhor Bowie? Ou o senhor prefere Senhor Supremo do Rock/Pop/Glam David Bowie? Posso chamá-lo assim também se quiseres. Enfim, espero sua resposta. Seja como for, vou convencionar chamando de senhor Bowie, espero que assim esteja bom para o senhor. 

Inicio essa carta dizendo o prazer que me traz poder finalmente escrever para o senhor. Eu venho pensando nessa possibilidade há anos, mas sabe como é, astros como o senhor são de difícil acesso, mas como agora o senhor está aposentado, talvez tenha mais tempo para ler minhas linhas. 

A verdade, senhor Bowie, é que eu vou fazer uma viagem, sabe? Pra estudos, namoro, passeios, compras, essas coisas. E resolvi ir contando para o senhor para ver se quem sabe o senhor se anima de me encontrar em algum passo do caminho. 

Devo, claro, me apresentar. Meu nome é Ricardo Maciel e eu sou um grande fã do senhor. Fanático? Não. Bem, não sei. Essa é uma pergunta difícil. Eu acho o senhor uma das pessoas mais fantásticas da face da Terra, sim, mas fanático não. Eu costumo dizer que sou fiel ao senhor e avançado espiritualmente. Tenho alguns conhecidos (não chamo de amigos) que não gostam de suas músicas ou não o amam assim intensamente como eu, acredita? Pois é. 

Costumo dizer que eles não são evoluídos espiritualmente o suficiente para entendê-lo. Afinal, tudo o que o senhor faz é bom. Essa é uma das grandes máximas da filosofia moderna aqui perto do trópico. Talvez só eu mesmo ache isso, mas já é o suficiente para mim. Devo confessar que no começo eu só gostava de algumas coisas, mas depois fui sendo tomado por um misto de paixão e admiração que hoje tudo que o senhor faz eu gosto. Alcancei a luz, senhor. Mesmo os seus discos dos anos 80 tem lugar para a minha admiração (e, cá entre nós, sabemos que o senhor não sabia bem o que estava fazendo, não?)

Enfim, a minha idéia é escrevê-lo todos os dias, mas sei que isso não vai ser possível. Seja como for, tentarei manter a constância. Escolhi essa paisagem de fundo porque parece a sua terra em um dia chuvoso e nós dois sabemos como chove na Inglaterra, não?

Espero que o senhor esteja bem, cuidando de sua filha Lexis e da sua senhora Iman. 

Tudo de bom, 

Ricardo