Caro Senhor Bowie,
desculpe-me, eu ia escrever
antes, mas fiquei confuso com a viagem e tudo mais. Bem, demorei um pouco, mas
aqui estou de novo. Estou em Paris, estou na Europa!
Abro os olhos e os ouvidos e destapo as narinas para Paris. Os
cheiros de Paris bons e ruins ao mesmo tempo. Das baguetes, dos parques, das
lojas e dos sovacos fedorentos de pessoas que não gostam tanto assim de tomar
banho. Hoje fez calor. Meu apartamento é do lado de uma avenida que faz barulho
tempo inteiro, até de noite. Essa cidade não dorme aparentemente. Tem um
supermercado na esquina e muitos livros jogados em caixas por vinte centavos de
euro. As pessoas não são tão mal educadas como dizem por aí, elas só gostam de
respeito. Acho que ninguém gostaria de ver sua casa invadida por estranhos.
Imagino que seja assim que os franceses vejam os turistas. Alguns gostam, mas a
maioria (se não forem donos de comércio) dão uma certa desprezada. Fecho os
olhos e imagino tudo coberto de neve. Não vi neve ainda, só no alto do vulcão
equatoriano. Não, não fui até o cume porque não sou louco. Vai saber se aquele
troço explode e sai lava pra tudo que é lado. Não, não; não tô afim de virar
churrasquinho de escritor. Hoje eu passei pela casa que o Paul Valery morou.
Aquele que teve um caso com o Rimbaud, lembra? Talvez eles até passassem tempo
juntos naquela casa. Ou melhor, “passassem tempo juntos”, se é que você me
entende.
Enfim, esses últimos dias tem sido ótimos. Encontrei minha namorada
no aeroporto, Senhor Bowie, e ela se jogou em mim. Abriu os braços e quase
caímos. Foi engraçado. Eu tava era branco de medo de não passar na imigração
espanhola. É que estavam mandando um monte de gente embora. O Senhor não teria esse
problema, pois já nasceu na comunidade européia, mas sabe lá eu como seria. No
fim, me trataram super bem. Me
perdi no aeroporto de Madrid e fiquei acompanhado de duas senhoras de Taubaté,
uma cidade perto da minha no Brasil, que estavam mais perdidas que sei lá o
que. É um aeroporto grande e eu fiquei de tradutor para que elas soubessem que
trem pegar, onde comer, onde pegar o avião pra Paris, essas coisas. Não me
incomodei não, eu sempre gosto de conversar com as pessoas e elas eram
engraçadas.
No primeiro dia, conheci alguns amigos da namorada e fomos beber,
conversamos, já fui a um pub parisiense. Era bem parecido com um de Cambridge
que eu fui, da última vez que estive na Europa. Aí no dia seguinte comemos em
Saint Michel, em um restaurante super legal que tava tocando o cd da Adele ad
nauseum. Ainda bem que eu não enjoei dela! Aprendi a comer escargot! E adorei!
E comer comida francesa na França é bacana! Até porque tudo aqui é francês,
oras! Isso me lembra uma piada que o meu avô gostava de fazer dizendo que era
uma graça como as crianças francesas aprendem o francês cedo! E as espanholas
falam espanhol como ninguém! Depois disso realizei um dos primeiros sonhos que
pretendo realizar nessa viagem. Conheci a Ópera de Paris. O senhor é familiarizado
com a história do Fantasma da Ópera, né? Eu sei que o senhor prefere 1984, mas
eu sou fanático pelo fantasma desde os meus dez anos de idade. Ir para o lugar
onde ele morava (na história? huuum) e conhecer seu camarote foi a realização
de um sonho, ainda mais sabendo que tinha uma placa na porta dizendo “camarote
do fantasma da Ópera”. Foi muito legal! Eita, lugar chique! O Senhor já foi lá?
Fui passear na Virgin Store, no Arco do Triunfo, foi um dia muito
bom! Fomos ao cinema também ver Os Vingadores (ou The Avengers), com o Hulk,
Viúva Negra, Homem de Ferro e o Thor. Por incrível que pareça, eu gostei do
filme. Eu me envolvi com a história, apesar de não saber muito. É um filme de
ação e tal, com personagens de histórias em quadrinhos que eu não estou lá
muito familiarizado, mas tudo bem, acho que eu nem precisava saber nada para
poder me divertir com todas as imagens e efeitos especiais. Ah, sim, tem o
Capitão América também, mas as pessoas parecem não gostar muito dele. O que eu
queria mesmo era ver um filme bem feito com o meu super herói favorito que é o
Fantasma. Aquela meleca com o Billy Zane não faz jus ao herói. Uma pena.
Estou fazendo aula de francês e praticando na rua, nos sebos,
comprando vários discos por 2, 3, 4 euros. Dei um disco seu pra minha namorada
e ela gostou, eu acho. Nós dois sabemos que se ela não tiver gostado é porque
ainda não está evoluída espiritualmente para tal, mas eu acho que ela está.
Achei vários discos raros e/ou impossíveis de achar no Brasil lá na minha
frente! Foi difícil não comprar tudo!
Pensei que fosse ver um show do James Taylor aqui, mas ele já está
com os ingressos esgotados. Por falar em show, Senhor Bowie, que tal uma turnê,
hein? Ia ser uma boa, né? Sim, eu sei que o Senhor prefere ficar em casa e tal,
mas pense: logo seus netos (o Duncan tem filhos?) não terão visto o Senhor no
palco. Isso não é triste? (Bom, não custa tentar, né?)
Ganhei vários presentes! Estou muito feliz! Estou aprendendo a andar
de ônibus por aqui, RER também e até metrô! Vou me virando, com e sem ajuda, =)
Semana que vem tenho algumas coisas em mente para fazer. Uma delas é
passar na frente do apartamento da Maria Callas aqui em Paris. O Senhor gosta
dela? Eu gosto.
Bom, depois nos falamos mais!
Tudo de bom,
Ricardo

