quarta-feira, 4 de julho de 2012

Carta 11


Caro Senhor Bowie,

faz tempo que não escrevo nada para o senhor, né? Eu sei, é que esses dias tem sido tão agitados que foi difícil achar um tempo para lhe mandar algumas linhas. Neste exato momento, estou sentado em um dos vagões do Eurostar, digitando no meu notebook (chique!) e indo para a sua terra, Londres.
Vou fazer uma lista de algumas coisas que vou lhe contar, talvez não tudo nessa carta.

1. Minha ida ao Mercado das Pulgas de Paris
2. Compra do LP do Ziggy 40 anos
3. Minha visita à Coimbra, Portugal
4. Minha ida ao show da Alanis Morrissete no Le Zenith, em Paris, onde o senhor já tocou há alguns anos atrás (!)
5. Minha ida e shows e acampamento e histórias do festival da Isle of Wight lá na Inglaterra também.
6. Alguma outra coisa que eu me lembre ao longo do caminho!

Bom, vamos começar com o Mercado de Pulgas. Fazia tempo que eu queria ir nesse lugar de Paris. O Mercado de Pulgas – apesar do nome – é um lugar que vende basicamente móveis e objetos de arte, lustres, coisas assim. Ele foi sendo criado aos poucos e hoje é um conglomerado de mais de 17 mercados com um monte de lojas em cada um. Além de móveis, o que claramente não era o que eu estava procurando lá, as pessoas também vendem outras coisas como discos, cds, livros, brinquedos, comida (comi umas coisas tailandesas lá que eu adorei! E foi barato!). Eu estava atrás de discos baratos, mas achei pouquíssimos. Os que eu achei ou eram muito ruins ou estavam bastante gastos e estragados. Entrei em algumas lojas de móveis, conversei com pessoas, treinei meu francês, foi divertido. Eu já conheço vários sebos de Paris e tinha achado uma edição de um dos seus discos (o Heathen, de 2001) que vinha o cd em uma capa de vinil. Em um dos sebos eu achei por 50 euros e fiquei aguado para comprar, mas deixei lá porque era muito caro. O Senhor acredita que eu achei essa mesma edição em uma das lojinhas por 15 euros! Foi inacreditável! Depois eu ainda achei essa mesma edição por 5 Euros em um outro sebo, mas ela estava bastante estragada... Enfim, comprei essa edição, um poster do filme “Merry Christmas, Mr. Lawrence” e um compacto do Senhor cantando com o grande Bing Crosby. Eu me diverti, claro, mas devo dizer que esperava mais. Acho que eu fui com a idéia de que seria uma grande feira de discos e não foi nada disso que eu encontrei lá. E era longe, muito longe.
Outra coisa que aconteceu nesses últimos dias é que eu comprei a versão em vinil do seu disco “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”. Eu já tinha uma lá no Brasil, mas agora que o Senhor lançou a edição comemorativa dos 40 anos e eu estou aqui resolvi comprar. Estava barata, 20 euros, e vem com o DVD áudio, como o Senhor bem sabe. Já que infelizmente o Senhor não está mais fazendo shows, eu tenho que me contentar com esses novos lançamentos. O que o Senhor acha de fazer um show, hein? Hein?? =) Não me lembro exatamente que dia que comprei o disco, mas lembro de ter ido até a FNAC da Champs-Elysée (porque eu não queria que fosse qualquer FNAC), olhado várias coisas e só comprado o disco. O Senhor pode imaginar a minha felicidade em estar andando pela Champs-Elysée com o disco debaixo do braço? Acho que sim, né? Eu me senti como se fosse a minha primeira vez comprando discos. Estava bem feliz e segurava o disco com todo o cuidado.
Passei alguns dias em Coimbra, visitando minhas amigas Lívia Nazatto, que me deu abrigo, atenção e paparicos e Natasha Neves que me deu trabalho como sempre. A casa da Lívia é super legal, ela mora em uma espécie de sótão de um prédio. Ele tem uns quatro ou cinco andares mais o dela. O teto é mais baixo por causa disso e é possível ver a divisão exata no meio da sala dela. O telhado em forma de triângulo fica óbvio ao se olhar pra cima. Por causa disso, não existem janelas normais. Todas elas parecem escotilhas de navio e são para cima. Todos os cômodos tem janela e isso é bom, mas demorei um pouco pra me acostumar com essa idéia, principalmente eu que adoro janela abertas! Conheci a cidade, passeei pela história Universidade de Coimbra, fui até a faculdade de Letras. Conheci também o cabo-verdense Nuno, namorado de Lívia, um cara muito bacana que ria das nossas diferenças em uso de palavras. Apesar de ser a mesma língua, os portugueses tem razão em dizer que falamos “brasileiro”. O que nós chamamos do “ônibus”, eles chamam de “auto-carro” e assim vai.
Tudo em Portugal está mal cuidado – e por isso eu vi, tanto em Lisboa quanto em Coimbra, manifestações populares de todos os tipos. A crise lá está brava. Que Portugal – a Europa inteira – está em crise, todos sabemos. É só ler os jornais e revistas diariamente e no mundo todo. Uma coisa é, entretanto, saber disso, outra bem diferente é sentir na pele os efeitos dessa crise. Nessa minha oportunidade de passar três meses na Europa – em um período de altas turbulências – estou por vezes longe de tudo que é maquiado para que os turistas continuem achando que está tudo bem. Como não temos muita grana, costumamos ficar em bairros mais afastados, perto de periferias e vi coisas que não estão nos guias turísticos. O continente europeu, embora não admita, está necessitado de turistas e pessoas jovens para trabalhar mais do que nunca.
Fui de ônibus de Paris à Coimbra em uma viagem que durou 22 horas. Existiam outras formas, claro, mas deixei para a última hora e essa era a mais barata. 153 euros ida e volta, sendo que um três seria o dobro ou até mais se considerarmos comida e possíveis compras na viagem.
Algo que eu e minha namorada (ela em Lisboa e eu em Lisboa e Coimbra) pudemos testemunhar é como Portugal está abandonado. Lugares turísticos cheios, mas absolutamente sem segurança (como a Torre de Belém), casas mal pintadas, uma triste realidade para um país que já foi talvez a maior ou uma das maiores potências do mundo.
Depois passei pela Espanha e vi que a situação lá também não está das melhores, Senhor Bowie. Não posso ter uma opinião completa, claro, até porque só passei pelas estradas. A fronteira Portugal-Espanha é parecida com a de Santana do Livramento e Riveira, cidades brasileira e uruguaia no sul do país. Só porcebemos que estamos em outro país quando as placas mudam de língua. O ônibus era muito bom, mas não estava preparado para estrangeiros, visto que tudo que se lê e se ouve de instruções e coisas assim são em Português. Franceses viajando tem de saber português para poder se virar. Tive a impressão também de que eu era o único não português a viajar lá. Vários moravam em Paris e iam visitar partes em Coimbra ou outras das várias cidades que o trem parava.
Parei então na Estação de Guarda, a segunda cidade mais alta de Portugal, segundo o senhor ao meu lado. As casas eram muito bonitas e todas elas tinham vistas maravilhosas da cidade e de outras cidades também, pois era todas localizadas no alto. O cartaz do Partido Comunista e bandeiras de Portugal são artigos comuns por todos os lugares que passamos. Os portugueses falam muito, contam histórias, riem e até cantam. Parecem brasileiros viajando (ou antes nós brasileiros é que nos parecemos com eles, não acha, Senhor Bowie?)
Passar um tempo com minhas amigas foi ótimo e a volta pra casa foi mais demorada que a ida. Fomos então Lívia e eu para a estação. O tempo passava e nada do ônibus aparecer.
Decidi então ir falar com a moça que vendia as passagens para saber se ela tinha alguma informação no computador ou algo assim. É claro que eu já havia checado o meu tíquete diversas vezes para saber o horário. E perguntei:
- Com licença, a senhora sabe se este trem está atrasado?

E ela olhou minha passagem, virou de lado, virou do outro e me disse:

- Aqui não diz nada se está atrasado.

E eu quis morrer.

 Enquanto que a ida foi povoada de senhores e senhoras, a volta foi povoada de crianças remelentas, árabes com turbantes e portugueses falando em francês ao celular. O preconceito contra os árabes – e também os africanos – é gritante, mas não se mostrava nesse ônibus. Todos se tratavam de uma maneira cordial, até simpática. Um dos senhores que estava no ônibus estava a paquerar uma das moças árabes – e eu nem sei se ela podia ser paquerada.
Fizemos várias paradas, mas uma delas foi bem mais demorada do que imaginávamos por um incidente bem desagradável. Um dos caras que estava no ônibus bebeu em todas as paradas, e que provavelmente já estava bebendo há bastante tempo, vomitou no corredor do ônibus. O motorista veio e deu uma enorme bronca no cara, que, de tão bêbado, se limitou a permanecer em seu lugar, imóvel. Ele sequer conseguia se mexer para pegar um balde com pano. Ele fez um serviço que ficou pior que a encomenda. A mãe de uma das crianças, irritada com a demora, tirou o rodo da mão dele e fez tudo sozinha, sendo aplaudida pelo ônibus todo.
Vimos um filme ótimo sobre guardas franceses na fronteira com a Bélgica. Uma comédia engraçadíssima, tão engraçada que eu tive que me segurar muito quando entramos na França porque os oficiais de polícia eram muito parecidos com os do filme e eu fiquei o tempo todo esperando que ele fizessem alguma bobagem. Não fizeram, pediram passaporte e documentos de todo mundo, retiraram nove pessoas para averiguações e prenderam um indiano, pois ele tinha o passaporte com um nome e uma carta de autorização de moradia com outro. Teve que ficar lá para se explicar e ônibus seguiu seu caminho mesmo assim.

Acho que está bem por hoje, não? Logo volto com mais novidades!

Espero que o Senhor esteja bem!

Tudo de bom,

Ricardo Maciel

2 comentários:

  1. Só para avisar que, apesar de não comentar, eu estou lendo seu blog!

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  2. Gostei bastante!!! Vc escreve de forma envolvente!! Quero mais detalhes sobre Isle of Wight... tenho vontade de conhecer lá!! E fiquei decepcionada com suas impressões sobre Portugal e Espanha... uma pena que estejam nessa decadência... Beijos

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